Já lá vão 38 anos que um grupo de militares, liderado pelos Capitães de Abril, assumiu a vontade do povo

Luís Guimarães
25 de abril de 2012
Já lá vão 38 anos que um grupo de militares, liderado pelos Capitães de Abril, assumiu a vontade do povo.
Exma. Senhora Presidente da Assembleia Municipal de Resende;
Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Resende;
Exmos. Srs. Vereadores;
Exmos. Srs. Presidentes das Juntas de Freguesia;
Exmos. Srs. Membros da Assembleia Municipal;
Exmos. Srs. Representantes das Entidades Públicas, Privadas e Religiosas;
Exmas. Senhoras e Exmos. Senhores
Caras e Caros Resendenses

Já lá vão 38 anos que um grupo de militares, liderado pelos Capitães de Abril, assumiu a vontade do povo e libertou Portugal das garras de 48 anos de opressão e ausência de liberdade e dignidade, num golpe militar que com a intervenção popular se transformou numa das belas revoluções pacíficas em todo o mundo. Desde então, Portugal construiu uma democracia política, económica, social e cultural, que importa preservar; Portugal contribuiu para a libertação e autodeterminação de povos; Portugal integrou-se na Europa e na NATO, assumindo um papel activo para a coesão e a paz no espaço europeu; Portugal desenvolveu-se, construindo uma sociedade em que o respeito pelos valores de Abril, a liberdade, a igualdade e a fraternidade, constitui a sua pedra basilar.
Resende conseguiu na última década, com o esforço de todos e com a visão estratégica de quem lidera os destinos da nossa terra, transformar-se num concelho que se afirma pelos seus valores, pelas suas raízes, pelos seus recursos e pelas suas gentes; os investimentos efectuados em Resende e nos resendenses permitiram alcançar um patamar de desenvolvimento e modernização, que honra os ideais de Abril e constituem motivo de orgulho para todos nós. Nos serviços básicos, no acesso à saúde, na educação e qualificação das nossas gentes, na aposta nos nossos recursos económicos, na criação e apoio a redes de intervenção social e equipamentos sociais, na qualificação do nosso território, demonstramos nos últimos dez anos, a nossa capacidade de edificar um património, que é de todos, e que é para usufruto de todos, e que dignifica os Resendenses, melhorando a sua qualidade de vida, criando oportunidades de crescimento e afirmação aos cidadãos, contribuindo para a existência de condições para um exercício efectivo da cidadania, logo da liberdade, sendo de realçar o contributo fundamental dado por quem dinamiza e incorpora o nosso poder local, com vista a uma maior participação cívica e política, sempre numa perspectiva de reforço da consciência social e do papel de cada um de nós na construção de um concelho próspero, mais justo, mais fraterno, mais solidário.
Resende é hoje a prova de que a ambição vence sempre a resignação; Resende é hoje a prova de que a acção é sempre melhor que o imobilismo; Resende é hoje a prova de que o Poder Local democrático é uma das mais importantes conquistas de Abril; Resende é hoje a prova de que o 25 de Abril valeu a pena.
Minhas Senhoras e Meus Senhores
As comemorações do aniversário do 25 de Abril constituem sempre um momento de homenagem e de evocação do esforço e do sacrifício de todos aqueles milhares de mulheres e homens, que num tempo em que tal não era permitido, ousaram sonhar e lutar por um país melhor. Mas este momento também se revela uma excelente oportunidade para reflectir sobre o estado da nossa democracia, do nosso país e do seu futuro.
Se de um ponto de vista formal, é legítimo afirmar-se que a democracia está consolidada, o mesmo não se poderá dizer acerca dos ideais que conduziram a Revolução dos Cravos, ideais esses que nos últimos meses têm sofrido as mais duras violentações.
Portugal encontra-se neste momento enredado numa verdadeira camisa-de-forças, fruto da tirania dos mercados e do capitalismo selvagem, que encontrou nas actuais lideranças europeias, os parceiros certos para a sua cruel voracidade. A isto se juntou também a sede de poder daqueles que hoje nos governam, numa mistura explosiva e definitivamente perigosa para o Estado de Direito Democrático que Portugal tem sido desde 1974. Uma vez no poder, o actual Governo cedo despiu a pele de cordeiro e mostrou a sua verdadeira face, rasgando o contrato eleitoral com os portugueses e aplicando a sua cartilha neoliberal de forma ainda mais veemente e radical que a preconizada nos compromissos internacionais assumidos pelo país.
Ao arrepio dos princípios vertidos na Constituição da República Portuguesa, desmantela-se o Serviço Nacional de Saúde, colocando em causa a sua universalidade e o seu carácter tendencialmente gratuito; reforma-se a legislação laboral, desequilibrando a balança das relações laborais em prejuízo dos trabalhadores, favorecendo e desonerando o despedimento e a exploração; corta-se nos apoios sociais, no momento em que eles mais são precisos, aniquilando políticas de inclusão social; massacra-se fiscalmente as empresas e as famílias, sem qualquer respeito pelo princípio da equidade fiscal, destruindo a actividade económica e o seu potencial de crescimento. Os resultados, esses, infelizmente, já são por demais conhecidos: espiral de austeridade, desemprego galopante, desigualdades colossais, pobreza extrema e exclusão social. Em todos os sectores da sociedade portuguesa, soam as campainhas de alarme, com a ocorrência de episódios próprios de um outro tempo, receando-se que não fique pedra sobre pedra das conquistas de Abril: jornalistas que são despedidos por delito de opinião, num desrespeito total pela liberdade de expressão; uma Justiça politizada, que não tem meios para investigar um caso que pode ter lesado o Estado Português em milhares de milhões de euros, mas à qual são facultados os recursos para empreender uma verdadeira caça às bruxas; no sector empresarial do Estado, no que concerne aos poucos anéis que ainda existem, os que são bons vendem-se com contrapartidas para alguns e os que não são bons, reparam-se e vendem-se a preço de saldo; foi assim, que Portugal vendeu um banco por um valor inferior ao de um jogador de futebol. Famílias e empresas completamente asfixiadas pela ausência de crédito, crédito esse de que o banco público já dispõe para que um grande grupo económico especule na bolsa; governantes que anunciam, em tom jocoso, o prolongamento da captura de remunerações aos funcionários públicos e pensionistas; leis aprovadas às escondidas, numa total ausência de transparência e ética, com o beneplácito de quem jurou defender a Constituição e a quem me apetece perguntar: haverá maior deslealdade do que esta?
Minhas Senhoras e Meus Senhores
Um dos principais legados do 25 de Abril é a convicção de que existe sempre um outro caminho. E para encontrar esse caminho, rumo a um modelo de sociedade em que a solidariedade e a igualdade prevaleçam, Portugal precisa de que a política assuma o seu lugar de primazia sobre a “mercadocracia” e o discurso tecnocrático; Portugal precisa de políticos de grande envergadura moral, determinados e com capacidade de liderança de projectos que estejam ao serviço dos interesses dos portugueses, e não ao serviço de uns quantos barões abrigados na sombra do poder; Portugal precisa de políticos que acreditem nos efeitos multiplicativos e redistributivos das suas medidas, em vez de técnicos munidos de calculadoras; Portugal precisa de políticos que sejam coerentes e íntegros, implementando hoje o que prometeram ontem, e não de políticos que defendem aqui em Resende uma coisa, e amanhã em Lisboa defendem o seu contrário; Portugal precisa de uma justiça que seja verdadeiramente justa, para todos, e não do encerramento de tribunais, assentes em lógicas economicistas, muitas vezes falsas, que criam uma justiça para ricos e nenhuma justiça para pobres, configurando um verdadeiro atentado ao Estado de Direito; Portugal precisa de apostar e valorizar os seus cidadãos, investindo nas suas qualificações, ao invés de fechar os olhos ao crescente abandono escolar de milhares de jovens, indicando-lhes a porta de saída do país; Portugal precisa de um Estado que encare os mais vulneráveis da sociedade, que por infortúnio da vida ou porque não tiveram as mesmas oportunidades que outros, se encontram numa situação em que necessitam de protecção social, devendo ser tratados como iguais, promovendo a sua inclusão; em suma, Portugal não precisa de um novo 25 de Abril, precisa que os valores que emergiram na Revolução sejam respeitados e honrados, como se faz aqui em Resende, no relacionamento com os cidadãos, no dia-a-dia, em cada acto, em cada palavra, em cada atitude, em cada medida, em cada política.
Se o fizermos, se respeitarmos estes ideais que estruturam e modelam a sociedade em que vivemos e queremos continuar a viver, será possível reacender a chama da esperança; se a confiança dos portugueses na política, nos políticos e na democracia for restaurada, será mais fácil aos portugueses acreditar que, com as suas capacidades e o seu espírito de sacrifício, é possível construir um Portugal próspero, justo, livre e solidário.
Viva o 25 de Abril.
Viva Resende.
Viva Portugal.

Adicionar comentário

Subscreva as Newsletters
Facebook